25.4.14

Weekend #31



The book thief. O filme é tão bom, daqueles que não esquecemos nunca mais. É uma história que nos corta ao meio, com passagens pela II Guerra Mundial que deixam uma pessoa devastada. Hitler e os nazis, é algo que nunca compreenderei. É um filme a não perder. Vídeo também aqui.




Fantástico este vídeo em que duas senhoras de idade fazem algo pela primeira vez: viajar de avião. E são tão engraçadas! Adorei a história, inspiradora. Para ver também ">aqui.




Um homem filmou as suas manhãs de sábados durante três meses. O resultado é hilariante! Para ver também ">aqui.



7 new iPhone photography apps that you should download now, aqui.



Seeing famous places from above. Já estive em seis destas vistas, nada mau! Para ver aqui.



7 twisted writers and the disturbing ways they died, para ler aqui.



O sub-solo de Lisboa é uma viagem no tempo. Estou encantada com esta história.



Está a ser feita uma investigação entre Portugal e Tenerife, sobre a utilização que os pais (com filhos até aos 18 anos) fazem da Internet, especificamente sobre a procura de informações sobre educação ou necessidades dos filhos. Este é um estudo comparativo entre a população portuguesa, espanhola e colombiana, e que pretende trazer novos dados sobre este tema. Se tem filhos e se preocupa com esta matéria, por favor dê a sua ajuda para que sejam retiradas conclusões neste estudo. O inquérito está aqui.




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Surpreender alguém no aniversário com este bolo enquanto ainda há morangos. Ou então, sem aniversariante, comer tudo sozinho.



Chega logo, verão! Tenho um casamento não tarda.

23.4.14

Quando a emigração corre mal: portuguesa pede trabalho

É um texto longo, mas uma lição que vale a pena ler. A emigração nem sempre é fácil, outro país não é sinónimo de emprego, e eis uma lição do que pode acontecer se as coisas forem mal feitas.


“Tenho 29 anos e tenho mais histórias para contar do que muitos com a mesma idade. Tudo começou quando ainda estava a estudar. Perdi alguns anos por trocar de curso devido à falta de informação. Terminei o curso profissional e decidi não ir para a Universidade por não ter possibilidades, por estar farta de estudar e achar que servia de desculpa para as festas e bebedeiras. Não tinha ninguém à minha volta que fosse um bom exemplo nem para me incentivar a garantir um futuro mais promissor.

A minha carreira profissional iniciou-se em lojas de centros comerciais. Uns duraram mais tempo do que outros mas o pior foi aprender a trabalhar com mulheres. Chegava a casa muitas vezes a chorar e o meu único apoio era o namorado que hoje é o meu marido.

Entretanto, o namorado que trabalhava para o Estado com um contrato a termo certo, terminou pouco depois de eu estar a trabalhar. Já tínhamos conversado em vivermos juntos, namorávamos há quase dois anos e decidimos comunicar aos meus pais. 

Quero aqui salientar que a relação que tenho com os meus pais não é fácil de explicar. Ambos são conservadores, tiveram uma vida difícil e a educação não incluía mostrar sentimentos. O meu pai achava que levar o dinheiro para casa era suficiente e quando havia discussões, eu ignorava e saía do local ou concordava com a minha mãe para não haver discussão entre eles. A minha mãe acha que tem muita experiência de vida só porque é mais velha, a sua vida é dedicada à casa e é “quem veste as calças”. Costuma dizer que tem sempre razão mesmo quando não a tem. É portanto uma relação sem muito afecto, sem ligações fortes, sem apoios. 

Eu tive uma boa educação, mas quanto a expressar amor não. É por isso que às vezes sou fria e não demonstro o que sinto. E assim que falámos com os meus pais a reacção foi péssima. Disseram que tínhamos de casar. Na realidade estavam preocupados com o que a família e terceiros iriam pensar e dizer. Acabámos por aceitar porque como ele ficaria desempregado sem saber por quanto tempo, pouparíamos dinheiro num anexo que os meus pais tinham disponível para nós. O casamento aconteceu dois meses mais tarde, no civil, por opção nossa e com poucos convidados. Não foi de todo um mau casamento mas também não foi o meu casamento de sonho. Se fosse hoje, teria feito tudo de forma muito diferente.

Já casados e a viver no anexo debaixo da casa dos meus pais, o meu marido continuava à procura de trabalho enquanto eu fiquei desempregada. 

Um ano depois, fizemos uma road trip pelos EUA durante quase um mês. Era o nosso desejo e tornou-se inesquecível. Ficaram muitos lugares por visitar e o desejo de voltar ainda mais. No final do mesmo ano, a nossa situação profissional não melhorava. E foi aqui que ele pensou se fizemos uma boa decisão em termos feito esta viagem.

Nos primeiros três anos do nosso casamento ele esteve desempregado, achavam que não tinha experiência em praticamente nada, foi como se os seis anos que esteve no Estado não tivessem acontecido. No meu caso, fui arranjando qualquer coisa. De lojas passei para trabalhos administrativos, ainda estive envolvida num projecto com possibilidade de trabalhar a tempo inteiro, mas com a crise fui dispensada. Eu nunca consegui trabalhar na área de curso porque os estudos não eram suficientes.

O meu marido conseguiu um trabalho enquanto que eu “saltava” de trabalho em trabalho ou ficava uns tempos parada. Foi a partir desta altura que eu me senti dependente dele. É verdade que somos um casal mas queria ter a minha independência, queria sentir-me realizada como mulher e profissionalmente. Queríamos ter filhos mas a nossa situação sempre foi incerta. Algumas pessoas diziam que não valia a pena esperar pelo momento certo porque não existe momento certo. Incluindo a minha mãe. Ter vivido tanto tempo por baixo dela, permitiu-lhe intrometer-se na nossa vida e julgar e opinar sem se quer lhe pedir. Nós não queríamos trazer ao mundo uma criança sem estarmos minimamente estáveis. Nunca ouvi dizer tantas vezes “a criança cria-se”.

Já em 2012, eu fiquei desempregada e durou um ano. Vivia do marido como a minha mãe. Não tinha trabalho, ainda vivia por baixo dos meus pais que controlavam tudo, não tinha filhos, não tinha nada. Voltar a estudar era um desejo mas sem possibilidades para tal. A relação com a minha mãe foi piorando e convivia com ela diariamente. Tivemos muitas discussões e relembrava-me sempre que nos tinha oferecido o anexo sem pagar nada e que eu era uma mal-agradecida. Até que comecei a pagar a luz. Nós só aceitámos porque o trabalho do meu pai estava a correr mal. E ainda assim, chegou a ameaçar a renda. Ela sabia que nós não podíamos sair daquela casa dada a nossa situação instável e aproveitava-se disso.

O desejo de emigrar já se arrastava há imenso tempo mas sem um pé-de-meia suficiente nada feito. Queríamos muito ir para os EUA ou para o Canadá, mas sem visto era impossível. Fartos da situação fomos pedir um empréstimo ao banco, que foi aceite. Foi um misto de emoções, um desejo que há tanto ansiávamos e era como um bilhete de saída para recomeçarmos uma nova vida juntos. Ele demitiu-se do emprego, emigrar já estava decidido e aguardámos para dar a notícia aos meus pais. Embora tivéssemos o desejo de emigrar, durante estes anos estivemos sempre em pesquisas. Procurámos e pesquisámos muito. Foi depois do Natal que comunicámos, embora já soubessem que poderia acontecer mais cedo ou mais tarde. Eles é que nunca acreditaram.

Foi no início de 2013 que pegámos no carro e partimos para Inglaterra. Uma viagem longa e cansativa mas também uma aventura e uma nova esperança. Eu sempre tentei ser optimista e positiva para equilibrar a nossa relação, mas ele é o oposto. Pensei que fosse mais difícil adaptar-me no novo país e agora não o troco pelo que me viu nascer.

Nos três primeiros meses, procurámos trabalho mas sem qualquer resposta. O dinheiro do empréstimo estava a ficar escasso e tivemos que pedir ajuda no Centro de Emprego. Foi vergonhoso para nós. Durou quase um ano.

O meu inglês sempre foi mais fraco do que do meu marido. Ele fala bem embora haja expressões que não conhecemos. Eu percebo o que me dizem mas engasgo-me sempre para falar. Nunca tive necessidade de falar inglês nos anteriores trabalhos e o que aprendia era nos filmes. Ainda tentei ter aulas para melhorar, mas o que eu precisava era de conviver com outras pessoas. 

No Verão, fiz voluntariado porque a minha conselheira do Centro de Emprego disse que era sempre bom ter no currículo. Assim o fiz, por um mês. Foi lá que conheci uma rapariga grega que emigrou pelos mesmos motivos do que nós. Ficámos amigas. Falamos inglês, mas também ela não domina a língua.

Em Setembro, o meu marido tirou um curso de contabilidade enquanto eu tive de escolher para educadora de infância. Não havia muitas opções todavia deu-me a hipótese de conhecer a forma como a educação funciona em Inglaterra. 

O Natal, trouxe-me a oportunidade de trabalhar temporariamente numa loja de telemóveis e ganhar experiência. Infelizmente a experiência que tenho de Portugal não serve para nada. Aqui começamos do zero. Durante todo o mês de Dezembro, fui praticando o meu inglês. Os colegas foram receptivos e espectaculares comigo. Sentia-me mais confiante a falar e o meu marido arranjou trabalho.

2014 chegou como sinal de que a nossa vida poderia melhorar. Este sentimento não durou muito tempo pois entretanto ele recebeu um notificado, de que não sabe se há possibilidade de continuar depois do Verão. Eu voltei a ficar desempregada e desde então, passo os dias à procura de trabalho. De qualquer coisa. Chego a perder 2h num só anúncio devido às perguntas múltiplas, por exemplo. As poucas respostas que recebo ou simplesmente não justificam o motivo ou não tenho experiência em algo.

Gostaria de ter aulas de inglês porque me sinto “burra” e a perder a confiança que tinha mas não posso. O empréstimo que fizemos em Portugal começa a afectar-nos agora porque eu não trabalho. A pressão aqui em casa aumenta a cada dia e não sabemos o que fazer. Dentro de um ou dois meses, provavelmente vamos andar a pão e água para pagar o que nós achámos ser a nossa esperança. As nossas famílias não sabem o que acontece por cá e pensam que estamos bem. Não temos coragem para dizer a verdade e porque nem sequer eles estão financeiramente estáveis para nos ajudar. Prefiro não dizer nada aos meus pais porque já sei “o que a casa gasta”. Temos dias em que nos surgem pensamentos tão negativos de tal modo que, achamos que se fecharmos os olhos saber-nos-ia tão bem.

À parte disto, estou a tentar engravidar desde Novembro porque queremos muito ser pais e além disso, o país ajuda com alguns benefícios de incentivo.

Na verdade, estamos perdidos se não surgir qualquer trabalho para mim. Nem que fosse de ordenado mínimo, já seria bom. Não é fácil viver noutro país sem ninguém. Somos vistos como estrangeiros, a língua inglesa é diferente ao que estamos habituados. Tenho dias que durmo mal, choro muito sozinha. É uma angústia e desespero, preciso de desabafar com alguém. Tenho um diário onde escrevo os meus sentimentos mas não chega. Às vezes pergunto-me se foi um erro emigrar, apesar de adorar viver aqui. Às vezes esta situação incerta relembra-me a que passei aí, a vida não melhora e quando sentimos uma pontinha de esperança surge outra desgraça qualquer. Tento ser forte e demonstrar ao meu marido de que tudo melhorará mas nem sempre consigo. Estou desmotivada e cansada de lutar. Seis anos é muito tempo. Eu sei que há situações piores mas preciso de uma luz, de um sinal. É por estas e por outras que eu não tenho fé nem acredito em Deus”.


Olá Rita!

O seu caso intriga-me profundamente. A Rita acha que a vida lhe corre mal porque tem azar e, embora não seja uma sortuda, eu vejo claramente que a vida lhe corre mal porque nos últimos seis anos só tem tomado decisões erradas. Umas atrás das outras. Tantas que chego a ficar impressionada. Se há momentos em que identifico uma opção errada e penso “bom, isto resolve-se”, no parágrafo a seguir está a tomar outra decisão errada. E mais outra. E desculpe-me, bem sei que a última coisa que precisa é de alguém que a puxe para baixo, mas às tantas eu pergunto-me onde está o seu discernimento.

Tem 29 anos, não tem um curso superior, o que não é vergonha nenhuma, nem todos têm oportunidade de estudar. Tem uma família que em termos de proximidade deixa a desejar. Ou seja, nunca retirou da família grandes exemplos, como disse, não se sente próxima e no fundo são pessoas com quem sente que não pode contar, ou prefere não contar. Em suma, posso estar errada, mas fez-me sentir que prefere estar longe deles do que perto. E tudo bem, não há mal nisso, não temos de gostar da família que calha em sorte só porque é família.

A sua carreira profissional passou por lojas, atendimento ao público, sempre passando de um trabalho para outro. O seu namorado, agora marido, trabalhava, o contrato acabou e ficou desempregado numa altura em que estavam a pensar ir viver juntos, o que comunicaram à sua família.

A reacção não foi boa e é aqui se dá o ERRO 1: “Disseram que tínhamos de casar”. Ora porra, Rita, desculpe-me a franqueza, “têm” de casar? Por que motivo, porque eles mandam? Rita, claramente mais parece que tem medo dos seus pais, eles ditam, a Rita faz. E em algum momento pensou “qual é a pior coisa que pode acontecer se eu impuser a minha vontade?”.

O que já lá vai, já vai, não há nada a fazer. Aqui a questão é que a Rita tem uma forma de agir que vai de arrasto com o que outros ditam. E onde está a sua vontade no meio disto? Eu farto-me de usar esta expressão “as pessoas vão até onde lhes permitir”. E o facto é que a Rita está sempre a colocar-se em último lugar para satisfazer vontades alheias! Ora, eu percebo que no interior as coisas são diferentes, percebo o preconceito, percebo isso tudo. Mas não percebo que uma pessoa se anule para agradar os outros. Não pode! Isso é uma receita para a infelicidade.

Casou e foi viver para o anexo dos seus pais. Com a Rita e o marido desempregados, casados há um ano, dá-se o ERRO 2 (e crasso): vão fazer uma road trip pelos EUA durante quase um mês. Rita, eu nem tenho palavras para isto! A inconsciência é tal que me revolta. Como é que com falta de dinheiro, desempregados, investem numa viagem de lazer? Eu já fiz uma road trip nos EUA durante 19 dias, gastei cerca de 3.000€, parte dos dias comi e dormi em casa de familiares (e ainda assim a despesa foi esta), mas só fiz porque PODIA! Eu gosto muito de viajar, mas só o faço SE PUDER! Quando faz uma viagem tem de olhar para as finanças e perceber se aquele dinheiro pode ser fundamental a curto ou médio prazo e, na vossa situação, claramente era um dinheiro que viria a ser necessário. É claro que ao fim de uns meses, “a nossa situação profissional não melhorava (…) foi aqui que ele pensou se fizemos uma boa decisão em termos feito esta viagem”. Não, não foi uma boa decisão, foi uma decisão completamente inconsciente.

Entretanto foram arranjando trabalhos alternando com o desemprego. Começou a sentir-se dependente dele, faltava-lhe realização pessoal e profissional, e o desejo de emigrar instalou-se e cometem o ERRO 3: pedir um empréstimo ao banco para emigrar. Isto é uma perfeita loucura. Se usassem economias para o fazer era uma coisa, mas contrair empréstimos para o fazer é completamente de loucos. No entanto, aqui assumo que pode ser uma visão muito pessoal da minha parte que entendo que não se devem pedir empréstimos pessoais ao banco desta forma ligeira.

Ele demitiu-se, deram a notícia à família, diz que “procurámos e pesquisámos muito”, mas eu pergunto-me que pesquisas foram essas que fizeram. No início de 2013 foram de carro até Inglaterra, um país que nesse ano tinha evidentes problemas de emprego. Foi um ano no qual se fizeram várias reportagens em jeito “se está mal cá dentro, lá fora não está melhor”. Em Londres havia até um português a viver dentro do carro.

Pergunto-me que pesquisas foram essas para se atirar para um país no qual não domina a língua. Como raio esperava ser bem-sucedida? Calculo que não tenha ido para Londres, é uma grande metrópole, poderiam conseguir emprego nem que fosse nas limpezas, mas nos três primeiros meses nada de emprego. O dinheiro do empréstimo começou a ficar escasso, tem um empréstimo para pagar, tem com certeza despesas associadas ao carro (não se leva o carro para outro país enquanto nada é certo, anda-se de transportes!), e chegaram ao ponto de pedir ajuda no Centro de Emprego, o que diz que “foi vergonhoso”. Não faço ideia o que quer dizer com isto, mas pelo contexto deduzo que o Centro de Emprego em Inglaterra também seja responsável por não deixar que as pessoas morram à fome.  

Afirma diversas vezes que o seu inglês é fraco. Deveria ter-lhe ocorrido fazer cursos em Portugal quando estava desempregada, antes de partir. Estando desempregada, devia ter pedido cursos no Centro de Emprego. Devia ter-se esforçado mais nesse sentido ou, então, ter emigrado para o Brasil onde não teria problemas com a língua. Se eu for empregadora e me aparecem candidatos que não sabem falar a minha língua, eu vou sempre escolher quem tenho a certeza que me entende. Isto é lógico e a Rita contou que saber a língua não fosse um requisito necessário para trabalhar.

O seu marido arranjou trabalho, a Rita fez voluntariado, fez uns cursos profissionais, trabalhou numa loja, voltou a ficar desempregada e o seu marido recebeu a notícia de que não sabe se há possibilidade de continuar a ter trabalho depois do Verão. O empréstimo que fizeram em Portugal começa a ter um peso enorme, a pressão em casa aumenta, diz que dentro de um ou dois meses “provavelmente vamos andar a pão e água para pagar o que nós achámos ser a nossa esperança”, escreveu-me esta semana a pedir uma resposta porque vai ficar sem internet, ou seja, está a chegar a uma situação limite, e na sua carta escreve que está a tentar engravidar desde Novembro “porque queremos muito ser pais”. E aqui que eu tenho vontade de a sacudir, Rita! ERRO 4.

Rita, quer tornar-se numa sem-abrigo? Eu faço-lhe esta pergunta com toda a seriedade.

A sério, a tentar engravidar? Eu percebia o lamento “gostava muito de ser mãe” se tivesse 39 anos e se encontrasse no limite de realizar o sonho ou não, mas com 29 anos, numa altura em que vive afogada em dívidas, desempregada, com zero estabilidade, a sério que está a tentar engravidar? Fico sem palavras.

Alimenta a ideia da gravidez com “o país ajuda com alguns benefícios de incentivo”, o país para o qual não descontou uma vida inteira, onde estão outros a trabalhar para que outros suguem os benefícios sociais.

Eu tenho uma amiga a viver em Londres. Essa amiga tirou o curso superior comigo e arregaçou as mangas para trabalhar em coisas que nada têm a ver com o curso. Sabia inglês, embora não fosse a mais fluente, participou em grupos de ensino e estudou. Agora está num trabalho melhor, mas durante anos teve uma vida de merda com pouca qualidade pessoal. Agora está num trabalho melhor, mas ganha o suficiente para as despesas. E tudo muito bem gerido.

Quando recebi a sua mensagem, enviei-lha para que me pudesse ajudar na resposta. E foi isto que ela me respondeu:

«Bom, não sei onde está exactamente, refere Inglaterra e não especificou a cidade, não me parece que seja Londres. De qualquer forma, parece-me que o que procura uma luz ao fundo do túnel.

Muita gente vem para Inglaterra (e outros países do norte da Europa) convencidos de que arranjar trabalho e fácil. É mais fácil do que em Portugal, mas há mínimos: é preciso saber falar a língua! Imagina em Portugal ir a uma loja e nem sequer conseguir comunicar com o funcionário? Eles aqui, porque estão muitíssimo habituados a estrangeiros, têm uma tolerância muito superior, mas ainda assim, não há milagres. Estamos num país que fala outra língua, então temos de saber falá-la.

Não percebi o que diz em relação ao curso de inglês que tirou: desistiu? Se sim, não o deveria ter feito. É a primeira ferramenta essencial para cá estar. Se não quer voltar ao curso ou se sente que não evoluiu muito, há outras opções (ainda mais quando não está a trabalhar e tem mais tempo disponível): cursos online grátis ou muito baratos, ver televisão (retirar todas as opções de legendas); ver vídeos, filmes (a internet esta cheia deles); ler livros em inglês (as charity shops, que estão por todo o lado, vendem livros a £1 e £2). Para além disso, parece-me que se sente muito pouco confiante e até com vergonha de falar. Que se lixe a vergonha! Não há melhor maneira de aprender do que falando. Vai errar muitas vezes, dizer disparates, pronunciar mal as palavras. É mesmo assim e com o tempo sentir-se-á mais confiante com a língua. Mas tem de tentar.

Nos últimos anos tem-se "agravado" o sentimento anti-imigração em Inglaterra. Desde que cheguei noto a diferença e esse sentimento está sobretudo direccionado com os imigrantes europeus. Vir para este país porque se conseguem bons apoios sociais é um erro. É por estas e por outras que este sentimento tem vindo a acentuar-se. Não tem trabalho, não fala bem a língua e está a pensar engravidar porque o Estado suporta? Really???

Independentemente do sentimento xenófobo que surge nestas situações, não me parece ser a situação ideal para ter um filho. Sim, receberá subsídios. Sim, o council dar-lhes-á uma casa. Mas é isso que quer? Não quis viver na dependência dos pais mas quer viver na dependência do Estado? Obviamente que a primeira situação não é igual à segunda: não há ninguém a "cobrar-lhe" a ajuda. Ainda assim, se foi o sentido de independência que a levou para fora de Portugal, deverá lutar por isso. E claro, no limite, se as pessoas não se conseguem sustentar, devem usufruir dos benefícios existentes mas, quanto a mim, essa deve ser encarada como uma ajuda temporária e um incentivo para procurar uma vida melhor. Ter um filho nestas condições é perpetuar a situação precária em que está.

Viver fora do nosso país e difícil. Tenho visto várias vezes o "Portugueses pelo Mundo", aquilo não representa a realidade da emigração, sobretudo esta vaga dos últimos anos. Não há caminhos fáceis: o clima é diferente, a língua e diferente, os modos e costumes são diferentes. E mesmo que estes aspectos não sejam maus, não são as coisas a que estamos habituados. Viver do lado de fora é lixado: há saudades, há muitas vezes desespero, é muito fácil perder a confiança em nós próprios, questionarmos as nossas decisões e perder a esperança. Mas viver fora dá-nos uma "estaleca" que dificilmente vamos ter se estivermos na nossa zona de conforto (pelo menos em tão pouco tempo). Use isso, use a flexibilidade que a imigração exige continuamente para não desistir.

Há tempos disseram-me que existe um padrão na imigração: o primeiro ano é bom, estamos muito abertos a todas as novidades e entusiasmados com as diferenças. O segundo ano é o mais difícil: o entusiasmo já se foi, as dificuldades ainda são muitas e o sentimento de insucesso acentua-se. A partir do terceiro ano as coisas melhoram: de alguma forma já se encontrou um equilíbrio entre o entusiasmo do primeiro ano e as desilusões do segundo. As coisas fluem melhor.

Parece-me normal que se esteja a sentir em baixo, desiludida, perdida. Aquilo que me parece um erro enorme é tentar ter um filho e contar com subsídios. Uma das vantagens de se viver num pais tão multicultural é que há muita gente na mesma situação que nós e criar laços com outras pessoas é um passo essencial para a integração. Vale a pena conhecer mais pessoas e aprender com as experiencias delas. Existem plataformas online que se baseiam nisso. Quando cheguei a Londres não conhecia quase ninguém e também "paniquei" com a língua. O que fiz? Inscrevi-me (gratuitamente) num grupo de Português-Inglês. Para além de aprender inglês, conheci pessoas de todo o lado. Se ainda me dou com essas pessoas? Não, mas foi um passo importante para me integrar (http://www.meetup.com/).

Embora me pareça uma pessoa lutadora, parece-me também uma pessoa precipitada a tomar decisões (aceita casar-se para não ter de lidar com a pressão dos pais, uma road trip pelos EUA quando se está numa situação financeira complicada, etc). E tenho de dizer, acho estranho que em três meses nenhum dos dois tenha conseguido arranjar trabalho (nem que fosse num café). Eu sei o quão difícil é arranjar um emprego aqui (especializei-me nessa dificuldade), mas ao fim de um mês consegui. Estou a falar de trabalho e não de emprego e, sei bem, a experiência de trabalho em Portugal, aqui conta zero.

Se quer continuar por cá, o melhor é mesmo arranjar qualquer trabalho, não há outra forma de se ter experiência. Atenção: tentar arranjar trabalho não é estar à espera que o Job Centre apresente propostas. O que não faltam são websites de procura de emprego (reed.co.uk , monster.co.uk, jobs.theguardian.com). Não sei se já o tem feito, mas caso não tenha, tem de perder algum tempo, criar um perfil, ver a secção de ajuda desses sites que tem dicas sobre como fazer um CV, carta de apresentação, etc.

Posto isto, sei que a Ana não lhe vai passar a mão no lombo e ser meiga. Se quiser, a Ana pode pô-la em contacto comigo».

Rita, eu sei que a minha resposta não é simpática, eu sei que não sou a pessoa mais doce do mundo quando me deparo com situações irracionais, e lamento se a deixei triste, mas neste momento precisa deste abanão, parar de cometer erros e deixar de fazer vida de casal com medo do amanhã. Tem de sair, criar laços, inscrever-se onde puder para sair dessa bolha e se for preciso trabalhar nas limpezas. Há sempre uma comunidade portuguesa algures, já encontrou a mais perto da sua zona?

E por favor, pare imediatamente de tentar engravidar! Deixe a história da gravidez para daqui a uns anos, terá tempo para isso!

Eu não tenho muita ajuda a dar a não ser identificar os erros (que note, são os mesmos que identificou a minha amiga) e levá-la a pensar de outra forma. Deste lado, em Portugal, não sabendo como são as coisas aí, não posso servir de grande ajuda. No entanto, a publicação deste post, na próxima Quarta, pode ser que seja lido por portugueses em Inglaterra que possam dar uma ajuda e, quem sabe, indicar oportunidades de trabalho.

“É por estas e por outras que eu não tenho fé nem acredito em Deus”. Rita, você não precisa de Deus, precisa de ter mais atitude e desbravar caminho, precisa de agarrar o primeiro trabalho que aparecer, ainda que desagradável (ninguém quer trabalhar nas limpezas), sem espírito fatalista e pensar que será temporário enquanto procura outro trabalho. E um atrás do outro vai desenvolvendo a língua, ganhando experiência e quem sabe consegue trabalho numa loja simpática.

Boa sorte, Rita! Espero que a publicação do texto traga muitos bons conselhos e, quem sabe, indicação de trabalho para si e para o seu marido.